Algoritmos treinados com dados geológicos reduzem riscos e custos na exploração do pré-sal, onde 82% da produção da estatal hoje se concentra
Antes de qualquer plataforma chegar ao oceano, antes do primeiro metro de perfuração, a Petrobras já sabe onde é mais provável encontrar petróleo. Essa capacidade preditiva, antes dependente de especialistas e interpretações manuais de dados sísmicos, passou a ser amplificada pelo uso de inteligência artificial. Algoritmos treinados com grandes volumes de informações geológicas criam modelos tridimensionais das reservas e identificam, com margem de acerto maior do que os métodos tradicionais, os pontos mais promissores para a extração em águas ultraprofundas.
A tecnologia não é uma promessa futura. A Petrobras já opera com IA em diversas frentes operacionais, do monitoramento de segurança em plataformas offshore à previsão de receitas no mercado interno. O Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), em parceria com a PUC-Rio, desenvolveu a tecnologia Smart Tocha, que usa IA para controlar a qualidade dos gases provenientes das refinarias e aumentar a eficiência energética das operações. O sistema aprende a identificar desvios e emite alertas em tempo real, reduzindo desperdícios e emissões.
Como a IA entra na exploração do pré-sal
A exploração em águas ultraprofundas, como as do pré-sal brasileiro, envolve uma quantidade de dados impossível de processar manualmente em tempo hábil. Levantamentos sísmicos 4D geram volumes massivos de informações sobre a estrutura das rochas e o comportamento dos fluidos subterrâneos. A IA entra para processar essa montanha de dados e transformá-la em modelos precisos que guiam as decisões de perfuração.
Um exemplo concreto vem da parceria da Petrobras com a startup Wikki Data, firmada em 2025. A colaboração usa o software Wisdom, que combina análise integrada de dados e IA para prever falhas em poços, minimizar riscos operacionais e reforçar a segurança ambiental. A principal inovação do sistema está na capacidade de processar um número muito maior de variáveis do que os métodos convencionais, integrando dados de diversas fontes e automatizando a análise da integridade dos poços.
Na frente de segurança operacional, câmeras de alta resolução instaladas em plataformas offshore alimentam sistemas de visão computacional com IA que identificam automaticamente riscos: uso incorreto de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), posicionamentos inseguros em relação a cargas, obstruções em rotas de fuga e acessos não autorizados a ambientes restritos. O sistema aprende a distinguir situações normais de situações de risco a partir de imagens catalogadas, emitindo alertas antes que acidentes aconteçam.
Pré-sal como laboratório de inovação energética
O pré-sal brasileiro não é apenas o maior polo de produção da Petrobras: é também o ambiente onde as tecnologias mais desafiadoras do setor de óleo e gás foram desenvolvidas ou adaptadas. Produzir petróleo a centenas de quilômetros da costa, sob milhares de metros de água e camadas de sal, exigiu que a Petrobras desenvolvesse expertise técnica reconhecida internacionalmente.
Em 2026, o pré-sal responde por 82% da produção total da Petrobras, que atingiu 3,23 milhões de barris de óleo equivalente por dia no início do ano, um recorde histórico. Parte desse desempenho deve à maior precisão na identificação de reservatórios produtivos, o que reduz o número de poços secos e diminui o custo unitário de exploração.
A Petrobras também desenvolveu e aplica a tecnologia CCUS (Captura, Uso e Armazenamento de Carbono) nas operações do pré-sal, reinjetando CO2 nas camadas rochosas em vez de liberá-lo na atmosfera. Isso torna o petróleo brasileiro, paradoxalmente, um dos de menor pegada de carbono na cadeia produtiva global, aspecto que a estatal utiliza como argumento estratégico diante do avanço da agenda de transição energética. A empresa usa a tecnologia não apenas para operar melhor, mas para se posicionar em um setor em transformação.
Fontes:
Petrobras / Nossa Energia, Estado de Minas, Investidor10, Brasil 247
Autor: Diego Rodríguez Velázquez