Tiago Schietti, a partir de sua experiência como empresário do setor cemiterial e funerário, acredita que a forma como uma sociedade cuida da memória dos seus mortos revela muito sobre os valores que ela cultiva entre os vivos. A cultura da memória e a homenagem aos que partiram são expressões profundamente humanas que atravessam séculos, continentes e crenças, manifestando-se de formas distintas em cada comunidade, mas carregando sempre o mesmo propósito essencial: manter viva a presença de quem partiu na vida dos que ficaram.
Neste artigo, serão exploradas as diferentes formas pelas quais famílias e comunidades cultivam essa memória, os rituais e tradições que estruturam esse cuidado no Brasil e as maneiras como cada família pode criar seus próprios gestos de lembrança e celebração, com liberdade e significado.
O que é a cultura da memória e como ela se manifesta no cotidiano das famílias?
A cultura da memória é o conjunto de práticas, rituais, objetos e narrativas que uma comunidade ou família desenvolve para preservar e celebrar a lembrança dos que partiram. Ela se manifesta nas formas mais diversas: no altar com fotografias que ocupam um canto da sala, na história contada à mesa sobre o avô que não está mais presente, na visita anual ao cemitério em datas significativas e até nas receitas que continuam sendo preparadas porque alguém amado as fazia com carinho. Cada um desses gestos, por mais simples que pareça, é uma forma ativa de resistir ao esquecimento e de manter o vínculo afetivo com quem partiu, informa Tiago Schietti.
No cotidiano das famílias brasileiras, essa cultura se expressa de maneiras que combinam influências indígenas, africanas, europeias e religiosas em uma mistura rica e particular. O Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, é talvez a manifestação mais visível dessa cultura no Brasil, reunindo famílias nos cemitérios para limpar, decorar e cuidar dos espaços de memória de seus entes queridos. Esse ritual coletivo revela que a cultura da memória não é apenas um gesto privado, mas uma prática social que fortalece os laços comunitários e reafirma, de forma pública, o valor de cada vida que passou por aquela comunidade.
Como diferentes rituais e tradições de luto no Brasil expressam o cuidado com quem partiu?
O Brasil é um país de grande diversidade cultural e religiosa, e essa diversidade se reflete diretamente nas formas como o luto é vivido e expresso em diferentes regiões e comunidades. No Nordeste, as novenas e os velórios comunitários reúnem vizinhos e conhecidos em torno da família enlutada, criando uma rede de apoio coletivo que sustenta emocionalmente os que ficaram nos primeiros dias após a perda. No Sul e no Sudeste, influências europeias moldaram práticas mais reservadas, com cerimônias menores e um processo de luto mais intimista, embora igualmente carregado de significado e cuidado.

As tradições de matriz africana e indígena também contribuem de forma significativa para a riqueza dos rituais de luto no Brasil, trazendo perspectivas sobre a morte e a memória que valorizam a continuidade entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, e que tratam os ancestrais como presenças ativas na vida das comunidades. Tiago Schietti observa que, independentemente da tradição seguida, o que une todas essas práticas é a compreensão de que o luto não é apenas uma experiência de perda, mas também um processo de reorganização afetiva que precisa de tempo, espaço e ritualidade para ser vivido de forma saudável e integradora.
De que formas as famílias podem criar seus próprios rituais de homenagem e lembrança?
Nem toda família segue uma tradição religiosa ou cultural específica no que diz respeito ao luto e à memória, e isso não é de forma alguma um obstáculo para criar gestos significativos de homenagem. Pelo contrário, a liberdade de criar rituais próprios pode ser uma das formas mais autênticas de honrar a singularidade de quem partiu, construindo práticas que refletem a história, os gostos e os valores daquela pessoa de maneira única e pessoal. Reunir a família no aniversário de falecimento para assistir ao filme favorito do ente querido, preparar um prato que ele adorava ou visitar um lugar que tinha significado especial para ele são exemplos de rituais simples que carregam um peso afetivo enorme.
Tiago Schietti também destaca que os rituais de memória não precisam ser solenes para serem significativos. Rir ao lembrar de uma história engraçada, compartilhar fotografias antigas em família ou criar um álbum colaborativo com memórias de diferentes pessoas que conviveram com quem partiu são formas igualmente válidas e poderosas de manter viva a presença daquela pessoa no cotidiano dos que ficaram. O importante é que esses gestos sejam feitos com intenção e com amor, transformando a lembrança em um ato ativo de celebração da vida que existiu.
Por que cultivar a memória dos que partiram é também cuidar dos que ficaram?
A psicologia do luto reconhece há décadas que a capacidade de preservar e integrar a memória de quem partiu é um elemento fundamental para a elaboração saudável da perda. Famílias que encontram formas de manter viva a presença do ente querido, seja por meio de rituais, objetos, histórias ou espaços de memória, tendem a atravessar o processo de luto com mais recursos emocionais do que aquelas que, por dor ou por pressão social, tentam apagar ou silenciar essa presença. Nesse sentido, cultivar a memória dos que partiram é, ao mesmo tempo, um gesto de amor por eles e um ato de cuidado com a própria saúde emocional de quem fica.
A partir do que considera Tiago Schietti, a cultura da memória e a homenagem aos que partiram são expressões de uma sabedoria humana que a modernidade às vezes tende a minimizar, mas que nunca deixou de ser necessária. Em um tempo em que tudo se move com rapidez e em que a morte ainda é tratada como um tema a ser evitado nas conversas cotidianas, preservar rituais e práticas de memória é uma forma de afirmar que cada vida importa, que cada presença deixa uma marca e que o amor que existiu merece ser lembrado, celebrado e transmitido para as gerações que ainda estão por vir.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez