A expansão da produção de petróleo e gás natural deverá ocorrer paralelamente à permanência das fontes renováveis em posição relevante na matriz energética brasileira. As projeções apresentadas pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que o petróleo pode avançar até 30% na próxima década, enquanto a produção líquida de gás natural tem potencial para crescer cerca de 95%.
Os números foram divulgados durante a 5ª Brazilian Petroleum Conference, realizada no Rio de Janeiro entre 19 e 21 de outubro de 2026. A apresentação da EPE integra as perspectivas do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) e coloca o pré-sal como principal vetor esperado para o aumento da produção de petróleo no país.
O cenário projetado evidencia uma característica específica do sistema energético brasileiro: o país poderá ampliar a oferta de combustíveis fósseis sem abandonar a participação expressiva das fontes renováveis. Segundo a EPE, as renováveis devem permanecer próximas de 50% da oferta energética brasileira mesmo com o crescimento da demanda ao longo do horizonte analisado.
Pré-sal concentra expectativa de crescimento do petróleo
Na avaliação apresentada pela empresa, o avanço da produção de petróleo estará ligado principalmente à continuidade do desenvolvimento das áreas do pré-sal. A região já ocupa papel central na produção brasileira, e sua expansão aparece como elemento determinante para que o país alcance o crescimento de até 30% estimado para os próximos dez anos.
A projeção não representa apenas um aumento de volumes produzidos. Ela também reforça a importância da capacidade brasileira de escoar, transportar e processar a produção associada às novas atividades de exploração e desenvolvimento. Para que o crescimento se converta em oferta disponível ao mercado, a expansão da produção precisa ser acompanhada por infraestrutura compatível.
O anúncio da EPE sobre a conferência relaciona as projeções ao planejamento de longo prazo do setor e também destaca os desafios que precisarão ser enfrentados para viabilizar o cenário. Entre eles estão a ampliação da infraestrutura de escoamento e transporte de gás natural e a harmonização das regras regulatórias.
Gás natural pode quase dobrar em dez anos
A perspectiva para o gás natural é mais intensa do que a estimativa para o petróleo. A EPE calcula que a produção líquida do combustível poderá aumentar aproximadamente 95% na próxima década, movimento associado à expansão da oferta doméstica e à necessidade de atender diferentes segmentos da economia brasileira.
O gás deverá manter importância para a indústria, o agronegócio e o setor de transportes. A ampliação da oferta pode abrir espaço para maior utilização do combustível nesses setores, mas o alcance desse potencial dependerá da existência de redes e instalações capazes de levar o gás desde as áreas produtoras até os consumidores.
Esse ponto é especialmente relevante porque parte da produção de petróleo e gás ocorre em áreas offshore, distantes dos principais centros de consumo. A conexão entre campos produtores, sistemas de escoamento, transporte e mercados consumidores será um dos fatores decisivos para transformar o crescimento projetado em disponibilidade efetiva.
Planejamento terá de conciliar oferta e transição energética
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2026 é a referência de planejamento usada para observar a evolução esperada da oferta e da demanda no período. A manutenção das renováveis próximas de metade da oferta energética mostra que a expansão do petróleo e do gás não elimina a necessidade de preservar uma matriz diversificada.
Na prática, o Brasil terá de administrar dois movimentos simultâneos. De um lado, será necessário ampliar a produção de hidrocarbonetos para acompanhar a demanda e fortalecer a segurança do abastecimento. De outro, a participação das fontes renováveis continuará sendo um dos principais diferenciais do sistema energético nacional e deverá permanecer integrada ao planejamento da expansão.
As projeções também colocam a regulação no centro das decisões. A EPE aponta a necessidade de harmonizar regras para dar maior previsibilidade ao desenvolvimento da infraestrutura de gás natural. Sem coordenação regulatória, o crescimento da oferta pode não alcançar de forma equilibrada os consumidores industriais, produtores rurais e empresas de transporte.
Infraestrutura será decisiva para o resultado
O desafio, portanto, não está apenas em produzir mais. A expansão prevista exigirá capacidade para movimentar o gás, integrar diferentes pontos da cadeia e conectar a oferta aos mercados. Esse processo envolve decisões de planejamento energético, investimentos em transporte e escoamento e regras compatíveis entre os agentes do setor.
Para o consumidor brasileiro, os efeitos dependerão de como essa infraestrutura será desenvolvida. Uma oferta doméstica maior pode ampliar as alternativas de abastecimento para atividades que utilizam gás natural, mas a concretização desse potencial dependerá das condições de acesso e da integração da rede.
As estimativas da EPE desenham, assim, um setor energético com produção crescente de petróleo e gás, forte contribuição do pré-sal e presença ainda expressiva das renováveis. O resultado dependerá da capacidade de compatibilizar segurança energética, expansão da infraestrutura e continuidade da transição para uma matriz menos intensiva em emissões.