Estados Unidos já respondem por cerca de 80% do diesel importado pelo país; governo e Petrobras garantem abastecimento em outubro, mas importadores temem falta de produto em novembro
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na terça-feira (22), durante agenda paralela à Assembleia Geral da ONU, em Nova York, que apoia a proibição das exportações de diesel do país. Ao lado dele, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, confirmou que o governo americano estuda se a medida é viável diante da capacidade de refino e se funcionaria melhor uma restrição total ou parcial. A declaração repercutiu imediatamente no mercado brasileiro de combustíveis, que depende das refinarias americanas para cobrir o déficit da produção nacional.
O momento não poderia ser mais sensível. Outubro costuma ser o mês de maior venda de diesel no Brasil, e as cargas já contratadas para o período vêm majoritariamente dos EUA. Segundo o Ministério da Fazenda, mais de 25% do diesel consumido no país é importado, o que coloca qualquer decisão tomada em Washington no centro das preocupações de distribuidores, transportadores e do próprio governo federal.
O que Trump disse e por que a ideia divide Washington
Trump declarou que já defendeu internamente a suspensão das vendas externas. “Eu disse: não vamos mandar diesel para fora”, afirmou, segundo relato da agência eixos. A pressão vem do mercado interno americano: o preço médio do diesel nos EUA chegou ao recorde de US$ 6,52 por galão, de acordo com a AAA, alta de 77% em relação ao mesmo período do ano passado, impulsionada pelos conflitos no Irã e na Ucrânia. Parlamentares republicanos de estados agrícolas, como o senador Chuck Grassley, vinham cobrando a medida antes das eleições legislativas de 3 de novembro.
A proposta, no entanto, não tem consenso dentro do próprio governo. Na quarta-feira (23), o secretário de Energia, Chris Wright, disse em evento da revista The Economist que a proibição não funcionaria e acabaria elevando os preços da gasolina e do querosene de aviação, já que as refinarias ficariam sem espaço para estocar diesel e teriam de reduzir o processamento. Wright afirmou ainda que Washington negocia com as refinarias uma solução voluntária e que novos anúncios devem ocorrer nos próximos dias.
Segundo o Investing.com, uma das hipóteses em análise é uma proibição por 90 dias, que seria a primeira restrição às exportações de energia dos EUA desde que o governo Obama encerrou, em 2015, a proibição de exportar petróleo bruto. Entidades empresariais, como a Câmara de Comércio americana e associações do setor de petróleo, pediram publicamente que Trump rejeite a ideia, alertando para o risco de alta dos combustíveis no próprio mercado doméstico.
Por que o diesel americano ganhou tanto peso no Brasil
A dependência brasileira dos EUA é recente e tem relação direta com a guerra na Ucrânia. A Rússia, que forneceu 47% do diesel importado pelo Brasil em 2025, proibiu a maior parte de suas exportações em julho, depois de ataques ucranianos a refinarias russas. De acordo com levantamento da eixos, os embarques russos para o Brasil despencaram de 909 mil toneladas em abril para 56 mil toneladas em agosto, enquanto os americanos saltaram de 90 mil para 721 mil toneladas no mesmo intervalo.
Em agosto, 74% das chegadas de diesel ao Brasil saíram do Golfo dos EUA, segundo dados da Commodity Analytics citados pela S&P Global, o equivalente a pouco mais de 1 bilhão de litros. Os dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, apontam fatia de 68% nos meses de julho e agosto, e informações de mercado indicam que as encomendas para outubro giram em torno de 80% de origem americana.
As alternativas também estão limitadas. Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Índia e Omã, que juntos somaram 16% das importações neste ano, passaram meses sem embarcar por causa da guerra no Oriente Médio, e apenas a Índia retomou volumes relevantes em agosto. Nesse cenário, a Petrobras assumiu a maior parte do abastecimento: respondeu por 86% do diesel entregue às distribuidoras em agosto, a maior fatia da série histórica da ANP, enquanto a participação dos importadores privados caiu de 13% para 5%.
Outubro abastecido, novembro em dúvida
Do lado oficial, o discurso é de tranquilidade no curto prazo. A diretora de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobras, Angélica Laureano, afirmou durante a ROG.e 2026, no Rio de Janeiro, que a estatal encomendou 650 milhões de litros para outubro, volume suficiente para atender seus contratos. Segundo ela, a ANP e o Ministério de Minas e Energia avaliam que o mercado estará abastecido no próximo mês. O secretário de Petróleo, Gás e Biocombustíveis do MME, Renato Dutra, também disse no evento que não há falta de produto prevista para outubro e que novas cargas importadas chegaram ao país nesta semana.
O problema pode aparecer depois. Fontes do setor ouvidas pela Folhapress avaliam que o abastecimento de novembro corre risco, porque o consumo de diesel tende a crescer na Europa nesse período, acirrando a disputa global pelo produto. Para o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo, os importadores brasileiros “terão grande dificuldade para continuar com as operações” caso a proibição americana se concretize.
O calendário de consumo agrava o quadro. Outubro foi o mês de maior venda de diesel em quatro dos últimos sete anos, incluindo 2024 e 2025, quando o país atingiu o recorde histórico de 6,43 milhões de metros cúbicos, segundo a ANP. Entre 2017 e 2025, as vendas de outubro ficaram, em média, 10% acima da média mensal, e a demanda deste ano segue firme: as vendas de diesel B cresceram 1% entre janeiro e agosto.
Subsídio perto do fim e o que observar nos próximos dias
Há ainda um risco doméstico no radar. A subvenção de R$ 1,12 por litro criada pela MP 1.363/2026 perde a validade no sábado (26). A nova MP 1.391/2026 instituiu um desconto adicional de R$ 1 por litro, em ciclos de até 30 dias, e os dois benefícios somam R$ 2,12 por litro enquanto coincidirem. Araújo alerta que, sem renovação da parcela maior, os importadores privados perdem o interesse em comprar no exterior, o que pode resultar em falta de produto em novembro.
Nos postos, a pressão já é visível. O diesel S-10 atingiu média nacional de R$ 7,13 por litro na semana encerrada em 19 de setembro, alta de 2,3% e o maior valor desde maio, segundo a ANP. A paridade de importação calculada pela agência chegou perto de R$ 7 por litro em alguns portos, mais que o dobro dos cerca de R$ 3 registrados no início do ano, e na quarta-feira o diesel das refinarias da Petrobras estava, em média, R$ 1,32 abaixo da paridade medida pela Abicom.
Para o consumidor e para quem depende do transporte rodoviário, os próximos passos são claros: a decisão final da Casa Branca, que Trump prometeu tomar rapidamente, a eventual prorrogação da subvenção que vence no dia 26 e a evolução do levantamento semanal de preços da ANP. No médio prazo, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, prometeu incluir no próximo plano de negócios da companhia uma meta de autossuficiência em diesel, tema que ganhou urgência com a nova ameaça externa.
Fontes:
- eixos: Brasil entra no mês de pico do diesel com 80% da importação sob ameaça de Trump
- Jornal de Brasília (Folhapress): Ameaça de Trump às exportações de diesel alarma mercado no Brasil
- Economic News Brasil: Brasil teria que substituir 1 bilhão de litros de diesel se Trump barrar exportações americanas
- Economic News Brasil: Preço do diesel entra no radar de Trump a dias do fim de subsídio de R$ 1,12
- Brasil em Folhas: Trump ameaça suspender exportações de diesel e preocupa mercado brasileiro
- Investing.com: Governo Trump estuda proibição de exportação de diesel por 90 dias
- Yahoo Finance: Trump floats ban on US diesel exports
- Axios: Trump backs diesel exports ban
- CNBC: Trump administration examining whether a diesel export ban is feasible
- The Hill: Chamber of Commerce, oil groups urge Trump to reject diesel export ban